Inteligências, competências e habilidades socioemocionais

Inteligências, competências e habilidades socioemocionais. Empatia, escuta, autoconhecimento, trabalho em equipe, autorregulação. Certamente muitos de nós — até mesmo os que não trabalham diretamente com educação — temos escutado com frequência algumas dessas palavras. O trabalho das emoções e sentimentos tornou-se um assunto frequente, principalmente com o advento das redes sociais, que fez com que as questões que envolvem a saúde mental fossem mais debatidas e naturalizadas.

Nesse sentido, um dos maiores espectadores dessas discussões é o adolescente. Nada mais natural, uma vez que a formação de sua personalidade está a todo vapor. Esse processo é contínuo e complexo, pois nele interagem fatores bio-sócio-psíquicos, como os hormônios, as próprias experiências e a consciência crítica. Em parte, a personalidade é fruto de influências que o indivíduo não controla; em parte, as pessoas escolhem como vão filtrar as influências. Assim, a conclusão quase óbvia é a de que a orientação e o estímulo ao trabalho das subjetividades devem vir da escola, onde normalmente o adolescente passa grande parte de seu tempo e onde cria suas relações mais próximas.

Entretanto, sendo um assunto novo — mesmo para os que já o estudam há alguns anos —, cabe perguntar: como é (ou como deveria ser) o trabalho socioemocional realizado na escola? É evidente que o reconhecimento das nossas emoções é indispensável. Ajuda a tomar melhores decisões — já que conhecemos melhor nossas reações e impulsos —, evita discussões desnecessárias, contribui para dissipar rancores, se conhecer, reconhecer nossos próprios talentos e habilidades e crescer com mais autonomia e segurança. Mas será que o trabalho acaba aqui?

Além da discussão sobre nossa saúde mental, as redes sociais trouxeram à tona a necessidade de posicionamento. Um estudo da University of Southern California mostra que, todos os dias, a quantidade de informação recebida por pessoa é equivalente ao conteúdo de 174 jornais. Com base em uma fórmula que calcula a quantidade de dados armazenada e enviada no mundo, considerando todas as mídias, a pesquisa também aponta que cada pessoa produz em média seis jornais de informação por dia. O que isso tem a ver com o desenvolvimento das habilidades socioemocionais?

Com acesso a tantas informações, o tempo para reflexão é encurtado. Ao mesmo tempo, as pessoas sentem que devem se posicionar a respeito de qualquer assunto que surge. Todos os dias temos uma nova polêmica e, com ela, a necessidade de uma opinião ou ao menos um post de apoio ou discordância. Essa pressão é uma das grandes responsáveis pelas angústias não só de adolescentes como de adultos. No entanto, para o adolescente em formação, o medo do “cancelamento”, de dizer algo “errado” em uma discussão e a tensão gerada pela expectativa de parecer uma pessoa alienada ou equivocada têm um peso maior. Por isso, é muito importante que o projeto socioemocional de uma escola convoque o aluno a refletir e realmente entender os aspectos positivos e negativos de qualquer tema antes de decidir o que pensa, além de fazer com que ele perceba que quase sempre é possível mudar de ideia após uma nova reflexão, por mais convictos que estejamos.

Trabalhar as emoções, refletir sobre o entorno… o que falta para uma formação socioemocional completa? Frases como “ele não estuda nada” ou “não sei mais o que fazer para que ela se engaje nos estudos” foram frequentes nos atendimentos que realizei nos meus anos como diretora escolar. Responsáveis excessivamente preocupados com o desempenho acadêmico de seus filhos — por melhores que sejam as intenções — normalmente contribuem para que o adolescente se afaste cada vez mais da ideia de que estudar deve ser motivo de prazer e descoberta e não de tensão e angústia. Em grande parte das vezes em que eu conversava com esses alunos, concluía que eles nunca tinham sido ensinados a estudar.

Por mais clichê que seja — e às vezes os clichês são necessários —, cada cérebro funciona de uma forma diferente. Deve fazer parte da formação socioemocional a apresentação de todos os métodos de estudo disponíveis e a orientação sobre o que funciona melhor para cada aluno quando se trata do processo de aprendizagem.

Nessa perspectiva, o trabalho deve contemplar os principais aspectos relacionados ao percurso formativo do aluno. Os educadores envolvidos também precisam receber a orientação necessária para que as atividades e reflexões propostas sejam facilitadas com responsabilidade e coerência, de modo que o aluno reconheça que a escola se importa com as suas individualidades e está disposta a orientá-lo no melhor caminho para a conquista de sua autonomia.

No fim, todos os envolvidos nesse processo são impactados positivamente. Os gestores escolares passam a perder menos tempo com questões menores, uma vez que desavenças, desentendimentos e questões de baixo desempenho acadêmico diminuem significativamente. Os professores podem aprofundar seus conteúdos, já que os alunos passam a refletir mais e criar melhores argumentos sobre diversos assuntos. E, claro, o ambiente familiar também tende a tornar-se mais harmônico, com crianças e adolescentes capazes de argumentar e controlar suas emoções, impulsos e sentimentos. Por fim, toda a sociedade ganha quando ajudamos a formar cidadãos conscientes e seguros. Como todos nós deveríamos ser.

Eu imagino que muitos de vocês já tenham ouvido falar sobre competências, habilidades socioemocionais e é possível que até já tenham tido contato com algum projeto. É possível que alguns de vocês até questionem a real necessidade de algo assim. Mas então, qual é a importância de um projeto socioemocional nas escolas? O que é (ou deveria ser) um projeto socioemocional?

Quem aqui tem lembranças nítidas e claras da época da escola? Tenho certeza de que, se a gente sentar para conversar, provavelmente eu vou encontrar o aluno que queria seguir uma carreira com a qual a família não concordava ou achava que tinha menos chance de fazer dinheiro. A aluna que discutia com alguém e perdia o controle… e talvez isso aconteça até hoje, no trabalho. O que somos hoje inevitavelmente tem a ver com o que aconteceu ao longo da nossa formação escolar.

Conhecer e trabalhar as emoções e sentimentos é indispensável. Ajuda a tomar melhores decisões, já que você conhece melhor suas reações e impulsos. Evita discussões desnecessárias, ajuda a dissipar rancores. Se conhecer, reconhecer seus próprios talentos e habilidades, conseguir trabalhar em equipe sem surtar.

Mas será que uma formação socioemocional completa é apenas sobre lidar com as emoções? Olha o mundo em que a gente vive. Quantas vezes nós, adultos, não sabemos bem como nos posicionar diante de uma polêmica? Vocês não se sentem soterrados de informação? Sentem medo de falar a “coisa errada” numa discussão? Já se sentiram envergonhados por não entender muito de um assunto que estava sendo comentado? Quem aqui nunca compartilhou ou acreditou em uma notícia falsa? Imagina a criança ou o adolescente. É essencial que um projeto socioemocional aborde os assuntos dos cotidianos dos adolescentes. E eu digo “cotidianos”, no plural, porque é impossível partir da premissa de que só há um cotidiano adolescente. Pode ser clichê, mas às vezes a gente precisa se lembrar deles para compreender o sentido: cada pessoa é diferente. Cada cérebro, cada experiência, cada vivência. É isso é muito rico, não deveria ser um problema.

Como diretora de escola, conversei com muitos responsáveis desesperados e às vezes muito irritados com o desempenho dos filhos. Ouvi muitos “ele não quer nada”, “vou botar para trabalhar, porque ela não quer saber de escola”, “fica cinco minutos olhando o livro e desiste”. E quando eu sentava com esses alunos, na grande maioria das vezes o único problema é que eles não sabiam nem por onde começar a estudar, porque nunca haviam sido ensinados. É claro que o aluno gênio da matemática tem imenso valor e deve ser motivo de orgulho e admiração. Mas não só ele. O aluno que faz boas imitações, o aluno que toca bem um instrumento, que é muito bom de lábia, o que desenha, o que costura. Todos têm seu valor. Não adianta esperar que um indivíduo seja exatamente como desejamos. Provavelmente isso só vai gerar frustração para os dois lados.

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